A comunhão da liberdade com a vida

Para mim, a liberdade começou nos bancos escolares, sem que eu tivesse muita consciência disso, sonhando “ser alguém na vida”. Paradoxalmente, para conquistar essa liberdade, encarei as limitações impostas pelos estudos e pelo “cartão de ponto”. Enfim, para ser livre, aprendi a aproveitar a vida com pouco tempo livre.

Todo ser humano deveria ter direito, desde o berçário, à moradia, à alimentação, à saúde, aos estudos, à segurança e ao transporte. Ninguém é livre morando nas ruas, pois mendigar não é liberdade. Para quem não tem nada, emprego é tudo. Emprego e salário justo são os pilares de sustentação de uma vida digna e livre. E o estudo é o alicerce dessa liberdade. Ver alguém escolher entre se sustentar e estudar é desumano. Estudo deveria ser sempre um direito, nunca um sonho.

Se o emprego é o pilar de sustentação de uma pessoa, o desemprego é o temporal que destruirá esse alicerce. O desemprego rouba a autoestima, destrói famílias, promove suicídios e coloca as conquistas de alguém em leilões, onde os ganhos de uns são perdas de outros. O desemprego também pode ser uma oportunidade para se reinventar, mas quando ele assombra milhões de pessoas, deixando-as na miséria, há pouco espaço para reinvenção. Para quem nunca viveu o desespero de ver uma montanha de contas vencidas destruindo uma vida, o desemprego é só uma estatística, mas para quem o conhece, ele é um pesadelo muito bem resumido nas palavras do Santo Papa João Paulo II: “o desemprego do homem deve ser tratado como tragédia e não como estatística econômica.” Desemprego não comunga com liberdade.

Também não comunga com liberdade o preconceito. Pessoas preconceituosas terão sua liberdade restrita porque limitam seus relacionamentos à cor da pele, à opção sexual e a outros motivos injustificáveis. O preconceito tem a única função de se fechar para alguém e ninguém que se fecha para alguém, desconhecendo seus valores e caráter, comungará com uma existência verdadeira.

A liberdade também não comunga com endividamento. Bom salário comprometido com dívidas penhora a carta de alforria de alguém no banco, e instituições financeiras não alforriam por compaixão.


Para vivermos em sociedade, os seres humanos criaram leis, enquanto para vivermos na terra, o Criador criou só 10 Mandamentos. Independente da crença de uma pessoa, se somente 4 dos 10 Mandamentos fossem seguidos, veja como a fonte de muitas tragédias humanas seria destruída. Não Matarás: imagine se todos nós tivéssemos garantido o direito de viver sem medo de feminicídios, homicídios e tantos outros crimes. Não Adulterarás: ou seja, não desejarás a esposa de um homem, o esposo de uma mulher, a esposa de uma mulher e o esposo de um homem, o que também eliminaria crimes e preconceitos. Não Furtarás: idealize um mundo sem corrupção, quanto dinheiro poderia chegar ao destino certo evitando misérias. Não Dirás Falso Testemunho Contra o Teu Próximo: em tempos de redes sociais em que saem atirando pedras irracionalmente, dá para supor que no mundo virtual tem muita gente isenta de pecado. Haja santidades. E Não Cobiçar as Coisas Alheias: todos nós temos talentos e capacidades natos, basta focar nosso tempo no desenvolvimento deles, evitando comparação com os outros.  

Nossa liberdade individual depende muito de quem governa o coletivo, que é feito de indivíduos. Governantes podem destruir uma sociedade, mas não o talento e a competência individuais. Mas é preciso coragem para encarar ou disfarçar o medo de romper com o lugar conhecido e se embrenhar nas fronteiras desconhecidas em busca da liberdade. Coragem e liberdade se comungam.

Pessoas valentes podem ser muito diferentes entre si, mas têm algumas características em comum: não culpam ninguém por seus fracassos, encaram a realidade e batalham por seus sonhos, podendo adiá-los e reinventá-los, sem jamais abandoná-los. Por outro lado, pessoas que se queixam da vida e acusam outras por seus fracassos tendem a fugir da verdade e a se refugiar na ilusão da mentira. Há muitos séculos, um jovem galileu disse: “a verdade vos libertará”. Logo, só é livre quem não teme a verdade e comunga com a realidade.

Um caminho seguro para a verdade é a leitura. Ler é uma bússola que nos aponta o Norte. A leitura pode não nos dar liberdade, mas certamente libertará nossa mente. Não somos livres para mudar certas realidades, apenas somos livres para escolher como lidar com elas.

Nesta gangorra chamada vida, que ora nos leva para cima, mostrando as belezas lá do alto, e ora nos arremessa para baixo, nos ferindo com as pancadas, surgirão bifurcações. O caminho escolhido diante de uma bifurcação é que vai distanciar vitoriosos de perdedores. Perdedores perdem tempo reclamando e vitoriosos ganham tempo agindo. Mas se a única garantia que vencedores e perdedores tem nesta vida, tão bela e efêmera como a flor de lótus, é a não garantia do minuto seguinte, devemos lutar ferozmente cada segundo vivo para escrevermos a história que sonhamos, porque a verdadeira comunhão com a liberdade é a vida. Sem vida, não há luta.

1 Comentário

  1. Itamar Silva disse:

    Querida e estimada escritora Celina Moraes.
    Parabéns pela matéria sensacional , carrego na minha mente e na pele todas as palavras desta excelente matéria , continuo tentando vencer na vida. Sonhar pra viver e viver pra vencer, sem vida não há luta, e sem luta não há vitoria.
    Obrigado sou seu fã.

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