As medalhas das corridas da vida

“Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo” –  Ariano Suassuna

 

Com os primeiros raios de sol, aquele menino de seis anos já cortava cana para ajudar os pais no sustento da casa. Apesar da vida difícil no canavial, os pais sonhavam ver os filhos carregando livros e não cana, por isso a escola fazia parte da rotina também. As noites daquele menino eram repletas de sonhos e ele sonhava alto. Queria ser piloto de avião.

Aos 16 anos, cortava cana de dia e estudava à noite. Mas agora havia uma esperança de abandonar o canavial e se alistar na Aeronáutica em Recife. Faltavam poucos dias para o tão esperado alistamento, quando um imprevisto o impossibilitou de prosseguir naquele desejo. Desistiu do sonho, mas não de voar alto.

Os dias voavam e ele teve medo de assistir imobilizado seus sonhos se perderem na imensidão dos canaviais. Ele sabia que os sonhos e as canas seguiam o mesmo ritual. Antes de colher, é preciso preparar o solo para o plantio e, mesmo assim, correndo o risco de algumas pragas estragarem a plantação. Precisava começar a arar a terra, senão ele seria apenas só um sonhador estagnado e não o sonhador determinado. Precisava agir. Correu para a rodoviária, comprou uma passagem de ida para São Paulo e outra de volta para o Recife. Desembarcou na capital paulista em 1997, aos 18 anos, com a única certeza da passagem de volta.

No início, fez bicos como ajudante de pedreiro, mas a insegurança do dinheiro no final do mês o motivou a procurar um emprego fixo. Encontrou muitos nãos pelo caminho, mas aquele rapaz nasceu para correr em busca dos seus sonhos. Demorou quase um ano para entrar naquele elegante edifício da capital paulista e olhar com orgulho para sua carteira profissional e o registro de faxineiro.

Pegou a vassoura e enquanto olhava para baixo limpando o chão, sua mente mirava o alto. Retomou os estudos e com muito sacrifício concluiu o colegial. Mas o banco escolar lhe abriu os horizontes e se perguntou: por que não uma faculdade?

O primeiro obstáculo foi o dinheiro, então tentou as faculdades públicas, mas não passou. O jeito eram as faculdades particulares mesmo. Palavras como obstáculos, barreiras e dificuldades não o impediam de continuar correndo rumo ao pódio da determinação. Foi aprovado em três faculdades e reprovado em todas as condições financeiras.

Decidiu adiar os estudos e poupar dinheiro. No prédio onde trabalhava, conheceu uma executiva de uma multinacional e arriscou abordá-la. Perguntou se ela o ajudaria a conseguir um emprego quando ele se formasse. Admirada, ela prometeu que sim. “Agora falta o dinheiro”, pensou o rapaz.

Durante três anos, ele poupou quase todo o salário e em 2003 começou a cursar Administração de Empresas. Sua maior dificuldade foi conciliar o entusiasmo de estar na faculdade com o desespero de ver seus modestos recursos sendo devorados pelas mensalidades. Houve um momento em que a única saída foi não procurar saídas e fortalecer a Fé, lendo e relendo o provérbio bíblico “o coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos”. E ele tinha certeza de que seus passos rápidos eram iluminados pelo Senhor.

Quando finalmente o tão sonhado diploma chegou, enrolado nele veio um realista carnê de oito mil reais. Procurou a executiva, que, mais admirada ainda pela garra daquele rapaz, o indicou para uma empresa.

Uma década após ter embarcado para São Paulo trazendo na mala apenas a passagem de volta para o Recife, aquele jovem que começou a trabalhar criança em um canavial, desembarcou numa multinacional.

Seus sonhos podiam estar nas alturas, mas seus passos eram firmes na terra, porque aprendeu, ainda criança, que a cana pode virar açúcar, mas é preciso saber cortá-la manuseando arriscados facões afiados. Hoje, além dos triunfos profissionais e das várias medalhas conquistadas nas pistas de corrida onde, muitas vezes, subiu no lugar mais alto do pódio, ele também construiu uma linda família, com a esposa e a filha.

Esta é uma história verídica e sempre vou contá-la e recontá-la, porque a vida desse meu amigo Itamar é um belíssimo exemplo de que a Fé inabalável em Deus, a insistência na persistência e os bancos escolares continuam sendo um caminho promissor para encurtar a distância entre sonhar parado e colher as medalhas da realidade. Palmas para esse persistente corredor das pistas e da vida!

Celina Moraes

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